Domingo, 21.Jul.2019



Por Robério Santos

O Cangaceiro

Uma história impressionante


25/05/2017 11:54
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O sol incendiava meus olhos numa cortina de lava quente naquela manhã de julho. Os pássaros teimavam em cantar baixo ou meus ouvidos estavam comprometidos devido às explosões. O sangue se misturava com o suor da minha testa e descia pelos olhos, obrigando-me a fechá-los. Tentava levar a mão suja de terra para afastar a visão turva, mas meu corpo não respondia. Chorei pela primeira vez em minha vida inteira carregada de dissabores e sentimentos equivocados.

Quando criança eu judiava os passarinhos e lagartixas no sítio de meu pai. Essa foi minha primeira escola da vida, mesmo assim não sabia o que se passava em meu universo fechado e minúsculo que se resumia à mesma coisa que era feita por todos da minha idade. Eu não era especial, nunca fui. Quando completei vinte anos matei um homem. Eu jurava que era um lobisomem no quintal de minha casa, armei a espingarda e transformei noite em dia com o estrondo. O baque do corpo sendo jogado ao chão quase acorda o mundo que gritou aos quatro ventos que meu lugar era na cadeia. Mas, claro, eu era pobre, não existia lei que me defendesse daquele infortúnio. Decidi fugir para não ir preso. Era julho de 1938, os sertões não eram tão seguros assim, mas definitivamente, havia um fio de esperança em torno do desejo de não se entregar.

De mundo, só conhecia os arredores do meu sítio. Deixei mulher buchuda e dois filhos pequenos. Um dia quem sabe todos haviam de esquecer meu crime e eu voltaria como o salvador que livrou o povoado daquele ladrão de galinhas, mas ele era filho de promotor e fazia aquele absurdo. Saí como ruim e demoraria muito todos morrerem de velho, pois talvez só assim eu com duzentos anos de idade, acabaria retornando como um estranho, ou me tornaria político e seria aclamado. Um saco nas costas, um cachorro magro que dei um taquinho de carne seca e desde então não deixou de me seguir, eu seguia viagem e foi uma dessas encruzilhadas da vida que me deparei com Zé Sereno, um dos cangaceiros mais temidos  de Lampião  dentre os centenas que já se destacaram e os tantos outros anônimos.

- Vem dadonde, muleque?

- Di lugá ninhum.

- Oxe, ninguém vem de lugá ninhum, todo mundo vem de argum lugá.

- Venho de Tabaiana Grande.

- E esse cachorro, é seu?

- É sim sinhô, si quisé levá é seu.

- Venha cunosco, será bem vindo. Tá cum fome?

- Tô sim sinhô.

- Tome isso, coma e nus acumpanhe. Essa é minha muié Sila, só num mexe cum ela, cum resto se mexê tu morre, mas se mexê com ela quem ti mata sô eu.

 - Obrigado pelo amparo.

 Eu não era criminoso e aqueles cangaceiros era o que havia de pior no mundo, mas também se a polícia me pegasse eles não me tratariam tão bem assim me dando rancho e ração. Que escolha eu teria naquele instante? Seguimos em direção ao São Francisco, pouca conversa e muita desconfiança. Cheguei a ouvir de um dos cangaceiros que era pra me matar, Zé Sereno disse que estava cansado de mortes dentro do grupo, se fosse de matar que fosse os macacos e só. Seguíamos ao norte, passando em alguns povoados, atravessamos Poço Redondo, terra de Sila e nos abastecemos com alguns mantimentos e armas. Minha serventia era ajudar a carregar as coisas, pois eu era o único que não usava chapéu de aba quebrada, arma ou aqueles farrapos pendurados no corpo que eles emulavam fardamentos paramilitares. Era final de Julho, não me lembro bem ao certo e ao adentrar à mata, ouvimos um apito baixo saindo do nada. Zé Sereno saca outro apito e responde quase ao som de uma codorna. Era dado o sinal de entrada, outros cangaceiros estavam esperando-nos na região do Angico, mais precisamente no leito seco de um riacho que se amontoavam lajedos que davam uma certa proteção ao bando. Todos estavam cientes que Sergipe já não era o mesmo de antes, neste Estado os ataques aos cangaceiros partiam até de civis, que eram advertidos a obterem fartas recompensas pelas cabeças dos cangaceiros. Era muito medo, mas eles eram destemidos e se estavam nessa vida sabiam do que era passível de acontecer.  

- Quem é esse qui tu pego pá criar, Macaquinho? (falou Lampião muito desconfiado).

- Achamo ele na estrada cansado e com fome, ele me contô qui tá fugino de casa por desavença cum home poderoso e num pode vortá pra casa pruquê morre. Nois precisava de gente pra trazê as coisa e ele veio, num parece perigoso não Capitão.

- Mateus pariu, Mateus balance. Tome conta dele e trate de mandá cumprá uma mescla de pano pá fazê uma rôpa adequada pra ele, si tá aqui qui si vista adequado.

 Apenas ouvi essas palavras do Capitão que parecia muito nervoso, ele sentia alguma coisa, era esperto. Meu cachorro comeu bem, pois os animais eram mais bem tratados que gente, pois já haviam salvado o bando inúmeras vezes alertando com seu faro aguçado, extremamente superior ao dos humanos. Inclusive, Lampião jurava que sabia se eles farejavam civis, volantes ou cangaceiros, pois o abanar do rabo e o levantar de orelhas se diferenciava em cada ocasião. Ouvi algo sobre Corisco também estar chegando para a reunião e que iriam atacar várias cidades sergipanas no mês de agosto. Ouvi alguém dizer que era dia 27 de julho, e já estávamos por ali há alguns dias.

Meu cachorro se chamava Gafanhoto e na madrugada seguinte ele se levanta subitamente como se pressentisse algo e volta a deitar. Abro e fecho os olhos, cochilo e acordo com uma chuva de folhas vindo em minha direção, parecia que o outono chegara um mês mais cedo, sorri e me virei. Parecia que tudo estava acontecendo em câmera lenta. Vi um dos cangaceiros que ainda não conhecia receber um tiro no peito antes dele pegar sua arma. Meu coração disparou e percebi que estávamos sob fogo cerrado e como eu não tinha arma, fui me arrastando até o rifle do morto e vejo a poeira subir no chão com um tiro. Alvoroçado, vejo a gritaria de ambos os lados e dezenas de cangaceiros correndo e revidando. Parecia um pesadelo, mas naquele instante meu peito foi atravessado com um tiro. Foi uma dor insuportável, mas não morri. Subi as pedras, me joguei pelo riacho e consegui me levantar segurando numa árvore. Fiquei apadrinhado nela até que tempos se passaram e o fogo cessou. Olhei para o ferimento e estava saindo muito sangue. Passei a mão na cabeça e percebi que havia mais sangue e ferimento, eu havia sido ferido de leve na região do crânio, quase me arranca o escalpo. Eu sabia que não sobreviveria àquele pandemônio. O Satanás estava sorrindo naquele instante, pois se houvesse um Deus eu tenho certeza que ele havia esquecido de nós ali. Também merecíamos, havíamos causado mais tristeza ao povo nordestino do que alegrias, por que então continuar com todo aquele pseudo-poder de um Estado paralelo que só gerava custos desnecessários numa indústria da criminalidade, com a contratação de volantes em exagero sem eficácia? Alguém havia se cansado daquele jogo de gato-e-rato, talvez o presidente Getúlio Vargas no Catete ou alguém que tenha definido que era a hora de pôr um fim no Cangaço. Olhei pela última vez e vi Maria de Déa levantar a mão implorando, quase morta, ao lado de seu amor, receber uma facãozada na nuca, perdendo sua vida. Engoli seco, meu cachorro foi morto, eu estava sozinho de novo.

Com muita dificuldade me distanciei do local por sorte, parando aos poucos quando ouvia vozes e torcendo para não ser encontrado. Quantos morreram? Quantos conseguiram fugir? Encontrei um tanque barrento, fora do mato. Com cuidado fui até ele e bebi água quente. O sol estava no alto do céu, já passava do meio dia e eu sabia que morreria por choque hipovolêmico ou de fome. Não estava fácil, nada foi fácil desde minha saída de casa. Voltei para o mato, vi uma árvore frondosa e a transformei em meu túmulo. Não tinha forças mais para continuar, deitei e me encostei. Desmaiei em segundos e nesta dormida não tive sonhos.

O sol incendiava meus olhos numa cortina de lava quente naquela manhã de 29 de julho. Os pássaros teimavam em cantar baixo ou meus ouvidos estavam comprometidos devido às explosões. O sangue se misturava com o suor da minha testa e descia pelos olhos, obrigando-me a fechá-los. Tentava levar a mão suja de terra para afastar a visão turva, mas meu corpo não respondia. Chorei pela primeira vez em minha vida inteira carregada de dissabores e sentimentos equivocados. Ouvi vozes, não abri os olhos, esperei o tiro.

- Moço, o que aconteceu com você, quanto sangue meu Deus.

- Tentaram me assaltar, fui baleado duas vezes e fugi, eu não consigo abrir meus olhos, o sangue secou e grudou.

- Vou pegar um pouco de água pra lavar, espere.

- Obrigado, muito obrigado.

 Meus olhos receberam água fria da manhã e aos poucos fui abrindo e vendo que era um casal de idosos. Não pareciam pessoas más e talvez fosse minha salvação. Eles estavam numa carroça, esta que estava estacionada na beira da estrada, dava para vê-la entre os arbustos e começo a agradecer.

- Obrigado a ambos, não sei bem o que se assucedeu, quero ajuda, me leve pa cidade pra me dá remédio, eu tô morrendo.

- Tu tá sabeno o que aconteceu em Piranhas? As notícias é que Lampião e mais dez foram mortos no Angico e suas cabeças foram cortadas i butaro lá pru povo vê na escada da prefeitura.

- Tô sabendo não, isso foi hoje?

- Onti, onti di manhã. Onde tu tava onti?

- Tava vindo na estrada e atiraram em mim sem avisar nada.

- Oxi, tu num disse que foi assarto?

- Parecia assarto.

- (...).

 O casal se afastou e conversaram por alguns minutos. Eles balançavam as mãos, pareciam brigar e a mulher volta e o homem vai até a carroça. Ouço as palavras.

- Eu quero te levar, mas meu marido disse que se a gente ajudá você a puliça nos mata. Acho que vamos deixá seu corpo aqui, é mió.

- Tudo bem, eu já tô morto mesmo, deixa eu morrer aqui.

 O velho chega e sem pensar duas vezes diz.

- Melhor vender sua cabeça do que perder a minha, sabemos que tu tava com Lampião, ninguém, tem esse tipo de arma não pruqui. Mió te matá e entregar à Volante em Piranhas, num vamo arriscá.

- É justo, façam o que bem quiserem, mas não deixem meu corpo aqui apodrecendo, enterrem ele, eu mereço.

- Tudo bem, feche os olhos.

 Senti meu corpo sendo ajudado a se levantar, o homem enfezado reclamava que ele se arrependeria de tudo aquilo. A mulher feliz colocou-me na carroça e fomos num sítio perto de Poço Redondo. Esperamos escurecer e meus ferimentos foram tratados na casa de um médico local. Meu nome é Jesuíno, hoje é meu aniversário de 100 anos e esta é minha história.

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