Segunda, 15.Jul.2019



Por Robério Santos

OS LOBISOMENS DE CAMPO DO BRITO

O segredo dos Lobisomens


21/06/2017 10:32 - Atualizado em 21/06/2017 10:43
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"O homem é o Lobo do Homem". Com esta famosa frase intitulo minha crônica sobre o poder de persuasão e mitificação dos acontecimentos em várias épocas da humanidade. Seu autor, o célebre filósofo inglês Thomas Hobbes nos mostra que o homem é o maior inimigo do próprio homem. Diante este argumento, nos perguntamos “o que há de mais amedrontador no mundo que o próprio ser humano?”. Somos causadores muitas vezes, de nossa própria morte e destruição do patrimônio material e imaterial. Dentre tantos mitos, um dos que mais me chama atenção é o do lobisomem.

Desde a antiguidade o homem teme o animal selvagem de uma forma que seu maior medo é centrado no fato de se transformar num ou de encontra-lo de forma não inteligível. É comum na literatura fantástica inglesa a punição do homem, não com a morte, mas sua transformação num animal ao qual a sociedade vai interpretá-lo como frágil (um porco sim, um leão jamais). Por exemplo, no universo criado pela J.K. Rowling na saga Harry Potter, uma das disciplinas ensinadas na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts é a Transfiguração. Inclusive a professora Minerva McGonagall adverte seus alunos de primeiro ano “Transfiguração é uma das mais complexas e perigosas forma de magia que vocês irão aprender em Hogwarts. Qualquer um que estiver aprontando em minhas aulas irá sair e não retornará mais. Vocês foram avisados.”

O Licantropo grego sofreu diversas variações no passar dos milênios, mas uma que se transformou em base para diversos ramos literários e cinematográficos é o estereótipo do “homem amaldiçoado que em noite de lua cheia troca de pele e se transforma em lobo”. O medo da escuridão, faz com que a lenda se torne presente, inclusive no Nordeste Brasileiro. Mas, minha atenção está voltada para uma pequena cidade do menor estado da nação verde-amarela: Campo do Brito.

Cidade pacata, já pertenceu a Itabaiana até 1912. As lendas sobre lobisomens que batiam as sete freguesias nesta cidade atravessam o século XX, deixando ainda os mais velhos com histórias de tirar o chapéu. Uma delas me foi passada por João (nome fictício), este que não quis se identificar, com medo de chacota por parte da população. Com seus 90 anos corridos, ele relata que em sua infância na década de 30 presenciou algo espetacular. Estava sentado à beira da estrada numa noite de lua cheia, vendo o sapo coaxar numa poça onde há alguns minutos havia sido formada por uma chuva rápida. A lua teimava aparecer por completa, mas mesmo assim, a garotada gostava de ficar perambulando. João foi o último a voltar para sua casa, pois eles moravam um pouco afastados do pequeno centro urbano que se formava ao redor da Igreja Matriz. Os sapos pararam de coaxar, os poucos vaga-lumes se apagaram e uma nuvem cobriu completamente a lua. Um silêncio tumular apareceu ao seu redor. Ele teve medo. Deu alguns passos de volta à sua casa e foi assim que ele ouviu algo gigantesco correndo em sua direção pela estrada. Ele gritou pra ele mesmo “é um lobisomem!”. Se embrenhou por baixo cerca, já que rezava a lenda que este monstro peludo nunca passava por baixo de uma, e foi assim que aconteceu. Tinha uns dois metros de altura, uns dois e meio de comprimento. Chegou perto do arame e ficou rondando, como se o procurasse. A luz estava fraca mas dava para ver sua calda negra, seu corpo forte e num instante ele o viu ficar de pé por alguns segundos e partir em direção à outra freguesia, provavelmente a de Itabaiana. Passado o susto, contou isso no dia seguinte aos amigos que disseram que por volta das 3h da manhã viram também outro atravessar a estrada no sentido contrário como se tivesse pressa pelo sol que iria nascer em algumas horas.

Após a breve conversa, guardei o depoimento em áudio e fiquei com esta história compondo mais um dos causos da ficção do folclore brasileiro. Até 2013, quando comecei a estudar a vida de um dos maiores itabaianenses já vivido por aqui: José Mesquita da Silveira, ou melhor, Zeca Mesquita. Publiquei seu livro biográfico em 2014 e nas pesquisas entrei num universo jamais estudado por mim: a Maçonaria. Quando pequeno eu tinha medo dos Maçons. O que me diziam era que eles se transformavam em lobisomem e batiam as sete freguesias bebendo sangue humano e arranhando a cruz de cristo. Quem em minha idade nunca ouviu falar em tal associação? Pois bem, eu associei de forma errada a trajetória desses grandiosos e honrados senhores. Desenvolvendo a pesquisa, notei que Zeca se tornou o primeiro Maçom itabaianense da história, trazendo esta palavra para a população local. Na década de 20 e 30 as estradas não eram de tão fácil acesso, muito menos para um automóvel. Vários “pedreiros livres” do interior iam para a Loja Capitular Cotinguiba, na capital Aracaju, principalmente os “maçônis” de Simão Dias. O caminho deles eram vários, mas um dos mais comuns segundo relatos, era por Campo do Brito, o que até hoje alguns seguindo a tradição, vão de Simão Dias à Aracaju montados em seus cavalos para a reunião.

Fazendo um paralelo entre o relato de João e os Maçons, tudo começa a fazer sentido. Viajar numa noite de lua cheia a cavalo é de suma importância para que se veja claramente o caminho. O formato do cavalo, no escuro, acoplado ao seu cavaleiro dava uma ideia de onipotência, de junção entre homem e animal. O cavalo jamais atravessaria uma cerca, a não ser que seja treinado para pular. A capa em seu corpo era para proteger do frio e chuva, onde acabava sendo mesclado ao corpo do gigantesco animal, despertando assim a imaginação de um povo simples e de imaginação fértil. As famosas “sete freguesias” são as cidades relatadas de sua passagem, o número “sete” é uma mera alusão ao chamado “número do mentiroso” na cultura popular nordestina.

Meu papel não é destruir a cultura local. Talvez o mito do lobisomem tenha sido introduzido para mostrar que o próprio homem é o teratismo, assim como sempre nos eram mostrados no desenho da Hanna-Barbera, Scooby-Doo, onde sempre os monstros eram homens fantasiados. Eu nunca vi lobisomem de verdade (a não ser o pobre João Valentim), mas já vi uma pessoa com Hipertricose e aquilo para uma criança de oito anos de idade em 1989 foi deveras amedrontador, pois foi apresentado como “Lobisomem Real” num circo em Nossa Senhora Aparecida no mesmo estado de Sergipe. Era um homem triste, tentando uivar para a multidão, fingindo ser um lobo. Eu estava com medo, assim como João estivera, mas hoje ambos sabemos que tudo não passou de uma brincadeira de nossa sensível imaginação.

Quer mais? Veja neste vídeo 


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