Domingo, 23.Set.2018



Gestão acéfala e oposição silenciosa: os paradoxos da política de Aparecida

Editorial SergipeNet.


01/03/2018 09:11 - Atualizado em 01/03/2018 09:24
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O município que já teve os “Ceará” e os “Torquato” como mandatários hoje é monopolizado por mulheres: Vera Souza (MDB) é a atual prefeita e mantém cativo um grupo que lhe dá sustentação, enquanto na oposição Jeane da Farmácia (PR) figura como a principal liderança. Ambas foram do mesmo grupo que ajudou ao ex-prefeito Manoel Eronildes vencer a famosa eleição de 1992, quando um ciclo de 28 anos foi quebrado. No entanto, a chegada de Vera ao Executivo ainda em 2004 provocou uma deserção de muitas lideranças tradicionais que sempre marcharam no mesmo agrupamento mas passaram a divergir do tratamento politico e da forma de administrar adotado pela emedebista.

Vera chegou à Prefeitura de Aparecida em meados de 2003 quando o então prefeito Eronildes renunciou para que sua vice tivesse mais tempo para sedimentar a candidatura no ano seguinte. Em 2004 derrotou Zé Pereira com uma diferença de exatos 1016 votos, marca nunca superada nas eleições municipais. Com este capital político todo Vera percebeu que conseguiria administrar sem seus aliados e logo rompeu com seu mentor e antecessor Eronildes, com vice Paulo Muniz, vereadores, lideranças e famílias tradicionais. Em 2008, numa jogada até hoje contestada, lançou Antônio Muniz, e assim ajudou a criar uma cisão na família Muniz, que viu dois irmão se digladiarem nas urnas. Antônio venceu e Paulo afastou-se da política. Em 2012 e 2016, ela mesma foi candidata obtendo êxito e se juntando a Manoel Torquato de Jesus (seu Tenente) e Manoel Eronildes dos Santos, cada um com três vitórias nas eleições para prefeito em Aparecida.

Entretanto a longevidade política de Vera contrasta com suas gestões, as primeiras com boa aprovação e as últimas marcadas por tímidas ações, distribuição de cargos em comissão, doações à população mais humilde através de lei municipal personalismo e clientelismo. Obras estruturantes, dinamização da economia, aposta no comércio ou investimentos nas atividades turísticas são praticamente inexistentes. Nem mesmo o fato de ser aliada de primeira ordem do governador Jackson Barreto resulta em grandes feitos. Depois das eleições de 2016 Vera se recolheu um pouco mais e, dizem alguns aliados em off, que foi por desgosto pelo resultado do pleito. Se fosse um jogo de futebol, Vera venceu mas não convenceu.

Jeane de Jesus Barreto, a Jeane da Farmácia, se notabilizou por ser uma empresária bem-sucedida e atuar nos bastidores sempre apoiando os candidatos majoritários do município. Em 2012 foi escolhida como o nome capaz de unir o grupo e enfrentar sua ex-aliada, mas alguns dizem que à época foi a única na cidade com coragem para enfrentá-la. Na oportunidade foi apoiada tanto por Paulo quanto pelo Antônio Muniz, este último prefeito à época, mas que não se viu nas ações e nas urnas os efeitos deste apoio. Novamente em 2016 o dilema de um nome que unificasse as oposições forçou Jeane a ir para o sacrifício e nunca campanha atípica saiu fortalecida pelas condições e estrutura de campanha.

O ponto fraco dos componentes do grupo oposicionista é que, via de regra, deixam para definir os nomes nos quarenta e cinco do segundo tempo. Além disso, é comum nas eleições estaduais várias lideranças da oposição preferirem alçar vôos solos e acabam apoiando cada qual o seu deputado federal e estadual, criando coesão no grupo e enfraquecendo os apoios externos.

Câmara

Assim como no período da Ditadura Militar há uma lenda que em Aparecida há duas bancadas na Câmara de Vereadores: a do “Sim” e a do “Sim Senhora”. A maioria faz parte da base e é composta por cinco parlamentares, enquanto a oposição é constituída de quatro vereadores. Como outras casas legislativas de cidades do interior, se há polêmicas, debates de projetos ficam restritos às paredes do prédio. Sequer usam as redes sociais para informar à população o que aprovaram ou rejeitaram e os benefícios das leis ali legitimadas. A mansidão dos vereadores é certeza de tranquilidade para a gestora que mesmo com uma administração muito aquém de muitas outras, passa como se fizesse uma gestão digna de nota 5,0.


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